VIDEOARTE
CONCEITO
O vídeo chegou relativamente cedo ao Brasil e muito rapidamente se
tornou um dos principais meios de expressão das gerações que despontaram
na segunda metade do século XX. Já no fim da década de 60, apenas dois
ou três anos após seu lançamento comercial no exterior, os primeiros
modelos portáteis de videoteipe começaram a aparecer no Brasil. Esse
equipamento havia sido colocado no mercado pela indústria eletrônica
japonesa para uso privado nas empresas, com vista ao treinamento de
funcionários, mas nada pôde impedir que, em determinadas circunstâncias,
as expectativas industriais fossem superadas. A simples disponibilidade
desse equipamento abriu espaço para o surgimento daquilo que René
Berger chamou de microtelevisão, uma televisão radical, produzida e
difundida em circuito fechado, independente dos modelos econômicos e
culturais da televisão broadcasting convencional.
PRIMEIRA GERAÇÃO: OS PIONEIROS
O primeiro brasileiro a mostrar publicamente obras de videoarte foi
possivelmente Antônio Dias, mas isso aconteceu no contexto italiano,
onde ele vivia. Entre os críticos, há um consenso de que o vídeo,
encarado como um meio para a expressão estética, surge oficialmente no
Brasil em 1974, quando uma primeira geração de artistas, convidada para
participar de uma mostra de videoarte na cidade norte-americana de
Filadélfia, realizou aqui os primeiros videoteipes, parte dos quais
sobrevive até hoje. Embora o convite tivesse sido extensivo a artistas
brasileiros em geral, na época apenas os cariocas conseguiram viabilizar
a produção, graças à intermediação de Jom Tob Azulay, que acabara de
trazer um equipamento portapack dos Estados Unidos e o colocou à
disposição de alguns artistas do Rio de Janeiro (Sônia Andrade, Fernando
Cocchiarale, Anna Bella Geiger e Ivens Machado). A esse grupo somou-se
ainda Antônio Dias, que produziu com os meios que conseguiu levantar em
Milão. Logo a seguir, outros artistas vieram engrossar a primeira
geração de realizadores: Paulo Herkenhoff, Letícia Parente e Míriam
Danowski, todos ainda ligados ao contexto carioca. Em São Paulo, os
primeiros trabalhos começam a aparecer em 1976, quando o MAC/USP,
dirigido por um entusiasta da videoarte (Walter Zanini), adquire um
equipamento portapack e o disponibiliza aos artistas da cidade. Regina
Silveira, Julio Plaza, Carmela Gross, Donato Ferrari, Gabriel Borba,
Marcelo Nitsche e Gastão de Magalhães são os primeiros a experimentar
essa nova tecnologia em São Paulo, mas é preciso considerar também o
caso isolado de José Roberto Aguilar, que trouxe do Japão o seu próprio
equipamento. Fora do eixo Rio-São Paulo temos ainda o caso de Paulo
Bruscky, que produziu alguns trabalhos no Recife, na virada dos anos
70/80.
Eles eram, na sua maioria, artistas plásticos preocupados com a busca
de novos suportes para a produção. Como se sabe, a partir de meados da
década de 60, muitos artistas tentaram romper com os esquemas estéticos e
mercadológicos da pintura de cavalete, buscando materiais mais
dinâmicos para dar forma às suas idéias plásticas. Alguns saíram para as
ruas e produziram intervenções na paisagem urbana. Outros passaram a
utilizar o próprio corpo como suporte artístico e converteram suas obras
em performances no espaço público. Outros ainda procuraram mesclar os
meios e relativizar as fronteiras entre as artes, produzindo objetos e
espetáculos híbridos como as instalações e os happenings. E houve também
aqueles que foram buscar materiais para experiências estéticas
inovadoras nas tecnologias geradoras de imagens industriais, como é o
caso da fotografia, do cinema e sobretudo do vídeo. Nos anos 70, Hélio
Oiticica introduziu a idéia fertilíssima do quase-cinema, para designar
um campo de experiências transgressivas dentro do universo das mídias ou
das imagens e sons produzidos tecnicamente. Num certo sentido, é
impossível compreender a primeira videoarte fora desse movimento de
expansão das artes plásticas ou de reapropriação dos processos
industriais, que já havia antes acumulado experiências no terreno do
audiovisual (projeção de diapositivos) e do cinema de 16 mm ou super-8
(Antônio Dias, Barrio, Iole de Freitas, Lygia Pape, Rubens Gerchman,
Agrippino de Paula, Arthur Omar, Antônio Manuel e o próprio Oiticica).
De qualquer maneira, toda a primeira geração brasileira de criadores
de vídeo era constituída de nomes em geral já consagrados no universo
das artes plásticas ou em processo de consagração, como foram os casos
de Antônio Dias, Anna Bella Geiger, José Roberto Aguilar, Ivens Machado,
Letícia Parente, Sônia Andrade, Regina Silveira, Julio Plaza, Paulo
Herkenhoff, Regina Vater, Fernando Cocchiarale, Mary Dritschel, Ângelo
de Aquino, Míriam Danowski, Paulo Bruscky e tantos outros. O vídeo
nasceu, portanto, integrado ao projeto de expansão das artes plásticas,
como um meio entre outros, mas no processo criativo do artista ele nunca
chegou a ser encarado com exclusividade.
A maioria dos trabalhos produzidos por essa primeira geração de
realizadores de vídeo consistia fundamentalmente no registro do gesto
performático do artista. O dispositivo básico do primeiro vídeo
brasileiro consistia, portanto, quase que exclusivamente no confronto da
câmera com o artista.
Um pouco depois da experiência carioca e da experiência paulistana do
MAC/USP, mais exatamente a partir de 1977, Roberto Sandoval, retomando o
elo com a videoarte internacional, despontaria como o primeiro
videoartista brasileiro a explorar imagens inteiramente abstratas (na
série Segmentos, produzida entre 1979 e 1981), ao mesmo tempo que a sua
escola de arte em São Paulo (a Aster) e logo depois a sua produtora de
vídeo (a Cockpit) se converteriam nos principais pólos de aglutinação e
de suporte instrumental para toda uma geração de videoartistas
paulistanos. Justamente por dispor de recursos próprios e mais
sofisticados do ponto de vista tecnológico, Sandoval acumulou um
repertório de teipes e cassetes dos mais amplos. E o fato de dispor de
uma ilha de edição permitiu-lhe desenvolver uma técnica de montagem
acelerada, com planos brevíssimos cortados em ritmo sincopado, técnica
essa que acabou por identificar o seu estilo particular.
Desgraçadamente, porém, toda a obra de Sandoval e de grande parte dos
outros artistas de seu círculo de influências desapareceu numa das
catastróficas enchentes da cidade, que inundou a produtora Cockpit, onde
estava depositada. Do grupo ligado a Sandoval, Regina Silveira foi a
que produziu um dos trabalhos mais originais.
Da primeira geração de realizadores, a maioria logo desistiu do vídeo
e partiu para outras experiências plásticas. Poucos foram os que se
mantiveram fiéis aos seus princípios básicos e continuaram a sua
tradição ao longo das décadas seguintes. Entre aqueles que deram
continuidade ao projeto estético dos pioneiros (simplicidade formal, uso
moderado de tecnologia, inserção “narcísica” do próprio realizador na
imagem, auto-exposição pública), o nome mais importante foi, sem dúvida,
o de Rafael França. Como acontecia em quase toda a obra da primeira
geração, o personagem principal dos vídeos de França é quase sempre ele
mesmo, seja figurando pessoalmente como protagonista, seja se fazendo
projetar num outro. França encontrou no vídeo um meio adequado para
meditar e especular sobre seus próprios conflitos interiores, sobretudo
sobre sua obsessão maior: a fatalidade da morte. Sua obra, de cunho
bastante pessoal, esteve também centrada numa indagação dramática sobre a
questão da homossexualidade.
No período de transição do vídeo brasileiro, deve-se citar ainda a
intervenção diferenciada de Artur Matuck, que, como Rafael França,
desenvolveu parte de sua obra nos Estados Unidos. Ao todo, o trabalho de
Matuck compreende pouco mais de uma dezena de vídeos, dos quais uma
parte significativa tem inspiração ecológica.
SEGUNDA GERAÇÃO: O VÍDEO INDEPENDENTE
No começo dos anos 80, uma nova vaga de realizadores viria reorientar
a trajetória do vídeo brasileiro. Trata-se da geração do vídeo
independente, constituída em geral de jovens recém-saídos das
universidades, que buscavam explorar as possibilidades da televisão
enquanto sistema expressivo e transformar a imagem eletrônica num fato
da cultura de nosso tempo. O horizonte dessa geração é agora a televisão
e não mais o circuito sofisticado dos museus e galeriais de arte. Muito
sintomaticamente, essa outra vaga se opõe à videoarte dos pioneiros
pela tendência ao documentário e à temática social. Com sua entrada
barulhenta em cena, o vídeo começa a sair do gueto especializado e
conquista seu primeiro público. Surgem os festivais de vídeo, dos quais
os mais importantes foram o Videobrasil (São Paulo) e o FórumBHZVídeo
(Belo Horizonte), aparecem timidamente as primeiras salas de exibição e
começam a se esboçar estratégias para romper o feudo das redes
comerciais de televisão.
Mas essa televisão ousada e criativa, que trazia à luz temas muitas
vezes incômodos, permaneceu, durante muito tempo, ausente da televisão
propriamente dita. Esta última ignorou sistematicamente a produção
independente, essa produção que, paradoxalmente, se prestava de forma
perfeita à tela pequena, utilizava com adequação o tempo televisual e
usava criativamente os recursos eletrônicos de estúdio. As
possibilidades criativas da televisão só puderam, portanto, ser
exploradas fora da televisão, em circuitos (fechados) alternativos. Mas a
marginalização do vídeo independente lhe dava maior intensidade. Menos
comprometido com a centralização de interesses e com o alto custo do
capital verificáveis no modelo broadcasting de televisão, o vídeo
independente, produzido e difundido fora dos circuitos oficiais, podia
investir no aprofundamento da função cultural da televisão, avançando na
experimentação das possibilidades da linguagem eletrônica, dando
ressonância aos graves problemas sociais do país e buscando exprimir as
inquietações mais agudas do homem de nosso tempo. Ele podia executar,
portanto, uma função cultural de vanguarda, no sentido produtivo do
termo: ampliar os horizontes, explorar novos caminhos, experimentar
outras possibilidades de utilização, reverter a relação de autoridade
entre produtor e consumidor, de modo a forçar um progresso da
instituição convencional da televisão, demasiado inibida pelo peso dos
interesses que são nela colocados em jogo.
Se fosse possível contar todos os grupos e talentos individuais que
surgiram na onda do vídeo independente é provável que eles somassem por
volta de uma centena. Uma vez que seria impossível tratar isoladamente
da experiência de todos esses grupos, vamos nos deter no exame das
experiências que se revelaram mais férteis e que tiveram maior número de
seguidores. A primeira é a de um grupo estreitamente ligado aos meios
vanguardísticos da cidade de São Paulo e que despontou, no início dos
anos 80, com propostas renovadoras de indiscutível impacto. Conhecido
pelo nome inventivo de TVDO (lê-se “TV Tudo”), esse grupo (constituído
pelos videomakers Tadeu Jungle, Walter Silveira, Ney Marcondes, Paulo
Priolli e Pedro Vieira) talvez tenha sido a melhor tradução para a mídia
eletrônica do espírito demolidor e anárquico do cinema de Glauber
Rocha. TVDO é também responsável pelas experiências mais radicais do
ponto de vista da invenção formal e da renovação dos recursos
expressivos do vídeo. Nesse sentido, seus trabalhos se aproximam
estreitamente de atitudes e procedimentos da videoarte dos pioneiros e
são muitas vezes confundidos e consumidos como tal. No entanto, a
familiaridade do grupo com a televisão e com as formas em geral da
cultura de massa, a sua resoluta decisão de operar na fronteira entre a
cultura popular e a erudita, como também a sua vontade de intervir
criticamente na realidade do país, tudo isso acaba contribuindo para
tornar mais “acessíveis” e generalizáveis suas conquistas formais e
temáticas, que se dão na vanguarda da invenção estética, sem incorrer
todavia em diluição.
Um outro grupo importante no movimento dos independentes é o Olhar
Eletrônico (cuja configuração foi variável ao longo do tempo, mas o seu
núcleo central era constituído basicamente por Marcelo Machado, Fernando
Meirelles, Renato Barbieri, Paulo Morelli e Marcelo Tas). Tal como
TVDO, foi um dos grupos que mais ajudaram a sacudir o bolor da mídia
eletrônica, experimentando soluções arrojadas e jamais antes encontradas
na rotina televisual. O Olhar começou realizando vídeos brevíssimos, de
três ou quatro minutos de duração, nos quais experimentava uma
linguagem de extrema concentração e explorava de forma inventiva aquilo
que os americanos chamam de machine-gun cut (corte-metralhadora). Na
verdade, a técnica da montagem acelerada, com planos bastante breves e
cortados em ritmos sincopados, havia sido introduzida no Brasil por um
pioneiro da videoarte, Roberto Sandoval; o que fez o Olhar foi dar-lhe
conseqüência como forma poética. Numa outra linha de experimentação, o
Olhar buscou também quebrar os modelos de representação que nos são
impostos sutilmente por meio dos aparatos de codificação (câmeras, ilhas
de edição) e pelos canais de difusão.
TERCEIRA GERAÇÃO: O VÍDEO DE CRIAÇÃO
A terceira geração de videomakers brasileiros não representa
propriamente uma virada radical de estilo, forma e conteúdo em relação
às outras duas fases já vividas pelo vídeo. Na verdade, essa nova
geração, que desponta publicamente nos anos 90, tira proveito de toda a
experiência acumulada, faz a síntese das outras duas gerações e parte
para um trabalho mais maduro, de solidificação das conquistas
anteriores. A maioria dos representantes dessa nova geração vem do ciclo
do vídeo independente. Muitos tomaram parte do movimento e integraram
grupos no período, preferindo optar, a partir dos 90, por um trabalho
mais pessoal, mais autoral, menos militante ou socialmente engajado,
retomando portanto certas diretrizes da geração dos pioneiros.
Percebe-se também nesta terceira geração um certo afrouxamento das
preocupações locais, a fixação em temáticas de interesse universal e um
vínculo mais direto com a produção videográfica internacional.
Eder Santos talvez seja o mais conhecido e difundido dos atuais
realizadores brasileiros de vídeo. Esse fato chega a ser surpreendente,
porque talvez não exista atualmente no Brasil uma obra audiovisual mais
difícil e desafiadora do que a de Santos. Na verdade, pode-se
caracterizar os vídeos desse realizador mineiro como as experiências
mais radicais e mais isentas de concessões de toda a produção
videográfica brasileira. Entre as razões principais da dificuldade,
podemos citar o fato de tais obras serem constituídas predominantemente
de ruídos, interferências, “defeitos”, distúrbios do aparato técnico e,
às vezes, roçam mesmo os limites da visualização. Em muitas de suas
videoinstalações, Santos faz projetar imagens de vídeo sobre paredes
texturizadas e rugosas, ou ainda sobre dunas de areia ou chão irregular,
de modo a perturbar a inteligibilidade das imagens ou corromper a sua
coerência figurativa.
Compreende-se bem essa fúria desconstrutiva com relação ao
audiovisual: Santos ataca em seus vídeos justamente a perda de
vitalidade das imagens, sua redução a clichês gastos pelo abuso da
repetição e, nessa investida contra a atual degeneração das imagens, ele
se mostra implacável como poucos. A trivialidade da vida cotidiana, o
comportamento estereotipado, o turismo de massa e a futilidade dos
cartões-postais são materiais de que o realizador lança mão para
construir contra eles, mas a partir deles, uma reflexão implacável sobre
a civilização contemporânea. Há em toda a obra de Santos uma tendência
inequívoca de contrapor-se à atual promiscuidade das imagens, de lançar
fogo contra um certo tratamento de superfície que predomina na atual
vaga do audiovisual e de praticar, ao mesmo tempo, uma espécie de
ecologia do olhar. Embora a televisão não esteja explicitamente nomeada
nas obras, ela é sem dúvida o alvo principal da investida desses vídeos e
filmes. É com a televisão e seu fluxo de imagens na maior parte das
vezes promíscuas que Santos polemiza o tempo todo, e é na televisão que
ele quer, no mesmo ímpeto, retomar uma certa energia primordial,
sufocada pelo tráfico de lixo comercial.
Outra é a perspectiva do trabalho de Sandra Kogut, que parece
concentrar e exprimir as tendências mais decisivamente inovadoras da
arte do vídeo, ao mesmo tempo que radicaliza o processo iniciado por Nam
June Paik de eletrificação da imagem e de desintegração de toda e
qualquer unidade ou homogeneidade discursiva. A técnica da escritura
múltipla que marca esse trabalho, em que texto, vozes, ruídos e imagens
simultâneas se combinam e se entrechocam para compor um tecido de rara
complexidade, constitui a própria evidência estrutural daquilo que
modernamente convecionamos chamar de uma estética da saturação, do
excesso (a máxima concentração de informação num mínimo de espaço-tempo)
e também da instabilidade (ausência quase absoluta de qualquer
integridade estrutural ou de qualquer sistematização temática ou
estilística). Se for possível reduzir a uma palavra o projeto estético
que está pressuposto na obra videográfica de Sandra Kogut, podemos dizer
que se trata de uma procura sem tréguas dessa multiplicidade que
exprime o modo de conhecimento do homem contemporâneo. O mundo é visto e
representado como uma trama de relações de uma complexidade
inextricável, em que cada instante está marcado pela presença simultânea
de elementos os mais heterogêneos, e tudo isso ocorre num movimento
vertiginoso, que torna mutantes e escorregadios todos os eventos, todos
os contextos, todas as operações.
A força do trabalho de Sandra Kogut, todavia, nem sempre tem sido
notada com a devida ênfase. A predominância de leituras de tendência
antropológica, viabilizadas sobretudo como decorrência do projeto das
videocabines, que notabilizou a realizadora no plano internacional, tem
obscurecido um pouco a percepção de seu verdadeiro alcance. Basta ver um
minuto de qualquer trabalho de Kogut para se perceber que a realizadora
não se restringe apenas à celebração de um referente interessante ou
pitoresco. É no trabalho de articulação dessas intervenções, no
comentário astucioso do que é dito e do que é calado, na forma com que
as falas são jogadas umas contra (ou a favor de) as outras, na maneira
enfim com que tudo acaba sendo de alguma forma ironizado que está o
traço mais importante da produção autoral de Kogut. Há uma distância
brutal entre os aspectos pitorescos da intervenção popular nas
videocabines e o fulminante resultado obtido após os trabalhos de
montagem e finalização, com destaque à utilização maciça de recursos
computadorizados de pós-produção.
Outros dois nomes importantes no contexto da terceira geração de
realizadores brasileiros são Walter Silveira e Arnaldo Antunes.
Coincidentemente, os dois foram originalmente poetas e emergiram do
movimento da poesia concreta. Esse movimento, que produziu sobre a
cultura brasileira um impacto tão grande quanto a bossa nova na música e
o cinema novo no cinema, procurou experimentar uma poesia de feição
radicalmente contemporânea, com grande ênfase dedicada aos aspectos mais
propriamente visuais e sonoros do poema. A poesia de Silveira, por
exemplo, deve grande parte do seu impacto aos aspectos gráficos da
escrita, ao uso expressivo das cores e à tipologia de suas letras
manuscritas, exigindo muitas vezes do leitor um trabalho de “decifração”
prévia dos caracteres. No campo do vídeo, Silveira optou por
experiências limítrofes com a linguagem da mídia eletrônica, de que VT
Preparado AC/JC (1986, realizado em parceria com Pedro Vieira) constitui
o melhor exemplo.
Por sua vez, Arnaldo Antunes é um nome bem mais conhecido no Brasil
como pop star, uma vez que foi líder de uma das mais famosas bandas
brasileiras de rock: os Titãs. Nos últimos anos, entretanto, após romper
com a banda, ele tem-se voltado a uma antiga paixão: a poesia. De fato,
tal como Silveira, Antunes tem sido um dos poetas mais talentosos da
geração emergida do movimento da poesia concreta, tendo inclusive
publicado cinco antologias poéticas de sua autoria. Depois de 1992, ele
muda o curso de sua poesia e começa a experimentar uma nova forma de
literatura, uma literatura feita no computador e destinada a ser lida na
tela do aparelho de televisão. Utilizando recursos de computação
gráfica e de vídeo, ele lança, em 1993, uma seleção de trinta
impressionantes videopoemas (Nome), que combinam letras animadas com
cores mutantes, imagens tomadas por câmeras de vídeo, oralização e
música. Tal como o Parabolic People de Kogut, é mais um passo na direção
de uma arte multimídia, capaz de combinar todas as artes anteriores
numa síntese perfeita.
Ainda entre os realizadores da terceira geração, deve-se destacar
também o nome de Lucila Meirelles, que já fora antes colaboradora de
Aguilar, nos idos dos anos 70, e depois se converteu numa das mais
ativas divulgadoras e produtoras de eventos relacionados com a história
da videoarte brasileira. O trabalho criativo de Meirelles é sui generis e
não tem similares em nossa videografia. Antes de mais nada, trata-se de
uma pesquisa de transferência do olhar, na tentativa de experimentar um
outro ponto de vista sobre o mundo, um ponto de vista “interno” a
certos grupos humanos “atípicos”, como o das crianças autistas (Crianças
Autistas, 1989), ou das crianças transgressoras e confinadas em prisões
disfarçadas de internatos (Pivete, 1987), ou ainda dos sertanejos cegos
pela luz do sertão (Histórias Luminosas do Sertão, 1997). Meirelles
busca não exatamente construir um discurso sociológico ou antropológico
sobre o outro, mas criar alguns dispositivos semióticos que nos
permitam, sob certas condições, “assumir” o ponto de vista (e o ponto de
audição) do focalizado, situando-nos em “seu” mundo. Tarefa difícil,
sem dúvida, e que Meirelles conduz sem nenhuma ingenuidade, conhecendo
bem todas as ciladas, mas cujos desafios ela tem enfrentado com uma
eloqüência e com uma dignidade que encontra poucos similares na arte
brasileira mais recente. Kiko Goifman é outro videomaker que poderíamos
destacar entre aqueles que também produzem trabalhos voltados para as
questões da antropologia visual.
Mas a grande surpresa da virada dos 80 para os 90, porém, foi a
adesão ao vídeo de três importantes nomes do cinema experimental: Andrea
Tonacci, Júlio Bressane e Arthur Omar. Na verdade, a incorporação da
eletrônica pelo cinema é um fenômeno que começa a acontecer de forma
gradativa a partir dos anos 80 em todo o mundo e na maioria dos casos
para dar respostas a determinados problemas insuperáveis dentro da
especificidade da cinematografia stricto sensu. Aos poucos, enfrentando a
desconfiança geral, alguns cineastas mais ousados e inquietos começam a
mesclar as tecnologias. Eles partem do pressuposto de que o equipamento
disponível e os métodos de trabalho acabam por submeter as idéias
criativas a normas de todas as espécies (estéticas, profissionais,
institucionais), de modo que, às vezes, é preciso recorrer a um
instrumental ainda não inteiramente afetado pelos hábitos para poder
descobrir novas possibilidades e uma outra maneira de produzir algo
diverso. Dos três cineastas citados, aquele que manteve uma produção de
vídeo mais sistemática foi Arthur Omar. A produção videográfica de Omar é
já bastante vasta e inclui tanto vídeos single channel como instalações
para vários monitores, sempre todos muito fortes no tocante ao impacto
sensorial.
Novos nomes despontam lentamente, com uma obra por enquanto pequena
na quantidade mas já grande na qualidade. No que diz respeito à
novíssima geração, é impossível deixar de mencionar vários nomes: Carlos
Nader, Lucas Bambozzi, Kiko Goifman e Adriana Varella. Carlos Nader
surpreendeu com uma obra de impacto como O Beijoqueiro (1992). Trata-se
de um retrato implacável da loucura brasileira, por meio da perspectiva
individual de um psicopata que se converteu em herói nacional. Nader tem
se destacado dentro da novíssima geração de realizadores pela busca de
novos formatos videográficos ou de novas estruturas narrativas, menos
comprometidas com as práticas já cristalizadas no cinema ou na
televisão.
No caso de Lucas Bambozzi, salta à vista, em primeiro lugar, uma
sensibilidade muito particular para lidar com as imagens eletrônicas.
Essas imagens estão sempre a um passo da liquefação ou da dissolução, o
que lhes dá um aspecto de imprecisão fundamental para sustentação das
temáticas propostas. Assim, ora elas aparecem granuladas, mascaradas,
desfocadas ou distorcidas, ora tremulam instáveis diante do espectador,
ora ainda as suas referências figurativas se apagam, resultando apenas
um grafismo nervoso ou manchas indistintas na tela. Ao mesmo tempo, um
trabalho de edição muito preciso permite controlar o tempo de duração de
cada plano, de tal forma que a visualização é interrompida antes que a
imagem se torne inteiramente perceptível ao espectador, resultando desse
procedimento uma evocação vaga, uma sugestão quase inconsciente, em
lugar da figura consistente que habitualmente se encontra nos produtos
audiovisuais de finalidades industriais.
Cabe ressaltar que videoinstalações aconteceram com maior ênfase na
última geração e vários dos artistas citados dedicaram grande parte de
sua produção à criação dessa classe de trabalhos, como, por exemplo,
Eder Santos e Lucas Bambozzi. Mas há ainda aqueles que só fizeram
videoinstalações, como é o caso de Adriana Varella.
Disponível em: http://www.cibercultura.org.br/tikiwiki/tiki-index.php?page=videoarte%20e%20v%C3%ADdeo%20instala%C3%A7%C3%A3o
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